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| Foto: Jorge Lucki |
SYDNEY: As exportações de vinhos australianos bateram um novo recorde em 2001 chegando perto de US$ 1 bilhão, o que representa um aumento aproximado de 20% em relação ao ano anterior. Essa evolução vem se repetindo de forma consistente desde o início da década de 90, chegando até a desbancar a França da tranqüila e histórica posição que ocupava como maior exportadora de vinhos para a Inglaterra. O sucesso em tão pouco tempo pode sugerir que vinho é assunto recente na Austrália. Mas alguns dados desfazem categoricamente essa impressão: é o país de língua inglesa com maior consumo per capita (cerca de 20 litros por habitante por ano), o território com mais guias e publicações sobre o assunto no mundo, e o lugar com maior quantidade de parreiras centenárias do planeta. Além disso, tem uma das mais avançadas técnicas vitivinícolas, servindo de modelo e exportando enólogos para países com tradição e tempo de estrada.
A entrada relativamente tardia da Austrália no primeiro time dos produtores de vinhos deveu-se a conjunturas de mercado que faziam com que a produção fosse canalizada para vinhos ordinários ou fortificados, gênero do Vinho do Porto só que, no caso, sem a mesma qualidade.
As velhas parreiras da casta shiraz plantadas em 1860 só começaram a mostrar seu imenso potencial quase 100 anos depois, quando, pelas mãos e visão de alguns pioneiros, passaram a produzir vinhos de mesa de qualidade. Foi na década de 50 que surgiram o Penfolds Grange e o Henschke Hill of Grace, os dois mais cultuados vinhos australianos. O primeiro é composto de uma seleção de uvas provenientes de vários vinhedos antigos da região de Barossa, e o Hill of Grace é um único pedaço de terra na vizinha Éden Valley, defronte a uma igreja luterana que preserva vinhas com 140 anos de idade, ainda em produção.
Além do porte - o tronco é de uma árvore baixinha - e do fruto precioso, essas parreiras carregam ainda história e responsabilidade: são matrizes originais vindas da França antes que os vinhedos europeus fossem destruídos pela Phylloxera - praga do solo que atacou as raízes da planta e obrigou, a partir do início do século XX, as vinícolas enxertarem em suas videiras espécies não viníferas.
Boa parte das áreas produtoras da Austrália continuam livres desse mal, possibilitando o plantio sem qualquer tipo de enxertia, o chamado "pé franco". Os órgãos responsáveis e os competentes profissionais australianos exercem rígido controle para manter as regiões "Phylloxera Free" e os novos vinhedos sem cruzamento. Eles têm consciência de que não estão totalmente imunes à praga, mas preferem correr o risco.
Como acontece com outros países, a Austrália vinícola tem uma série de particularidades que só ao vivo é possível perceber. A primeira, e talvez principal constatação, é que o país não se apresenta, ao contrário do que transparece, como uma imensa planície quente e seca, cheia de cangurus e coalas. Há uma multiplicidade de sub-regiões e microclimas que resultam em possibilidades ilimitadas para o plantio das melhores e mais refinadas castas de uva existentes em qualquer parte do planeta. É um erro associar a Austrália apenas a shiraz, cabernet sauvignon e chardonnay. É exemplar o caso da riesling - uma variedade sensível e típica de climas frios - provenientes de Clare Valley, o que de melhor eu já provei fora da Alsácia, pátria dessa uva. O mesmo vale para a sauvignon blanc de Margaret River, a semillon do Hunter Valley, e a pinot noir de Yarra Valley.
As sensíveis diferenças climáticas entre as regiões induzem, como não poderia deixar de ser, também a vinhos de características distintas, mesmo sendo elaborados com a mesma variedade de uva. A tão badalada e versátil shiraz cultivada na quente Barossa é conhecida pela volúpia e exuberância da própria fruta, enquanto em outras regiões, como Coonawarra, Mc Laren Vale ou mesmo o Hunter Valley, predominam especiarias. A cabernet sauvignon explode em sabores e complexidade em Coonawarra e Margaret River, tendendo a aspectos vegetais quando o vinho vem do Hunter Valley. A chardonnay de Adelaide Hills e Yarra Valley está mais próxima da Borgonha, contrastando com o estilo "novo mundo" presente na do Hunter Valley ou Barossa.
Essas sutilezas importantíssimas, típicas de vinho "de autor" - produtores de pequeno porte que colocam sua personalidade e se limitam a vinhedos da sua região -, dificilmente são percebidas no exterior. Isso porque as exportações, metade do que é produzido no país, são dominadas por quatro grandes grupos que respondem sozinhos por 80% do mercado australiano. Ainda que esses conglomerados sejam formados por uma série de empresas independentes, incorporadas com ênfase na última década e que mantém suas especialidades, o grosso do volume exportado é composto por vinhos mais comerciais, que não refletem o "terroir" diferenciado da Austrália.
A noção de "terroir", aliás, está mais presente do que nunca na atualidade australiana. Embora não tenham o toque pessoal do pequeno produtor, as grandes empresas não economizam esforços nem recursos para mandar buscar as uvas onde acharem interessante para compor seu portfólio. É freqüente a compra de lotes de cachos produzidos em locais específicos e distantes, que rodam milhares de quilômetros pelas estradas do extenso território do país para serem processadas nas principais cantinas mais centralizadas.
Assim, produtores de peso sediados no Hunter Valley, perto de Sydney - no lado leste da Austrália -, mandam buscar uvas nas regiões próximas a Adelaide, distante dois mil quilômetros, ou até mesmo em Margaret River, no canto oeste e a mais de cinco mil quilômetros.
A matéria-prima transportada das diferentes regiões podem originar vinhos individualizados ou serem utilizadas para compor "blends". A legislação no entanto impõe que quando houver qualquer menção de uva ou região no rótulo é necessário que haja, no produto, ao menos 85% do indicado.
A "nova" mentalidade dos produtores australianos pode também ser verificada pela utilização mais racional dos barris de carvalho e no equilíbrio dos vinhos. Atualmente, há grande quantidade de vinhos elegantes, que abandonaram aqueles excessos que impressionavam à primeira vista mas que mascaravam o produto. Perderam "os overs": o "over oak", o "over extracted", e o "over ripe", o que significa menos madeira, menos extração e sem aquela sensação de uva supermadura que deixava os vinhos pesados, enjoativos e deselegantes.
Espero que o mercado brasileiro seja rapidamente contemplado com essas preciosidades.
Foto: Jorge
Lucki/Valor |
ADELAIDE: Não é por mera coincidência que os cinco pólos vitivinícolas mais importantes da Austrália situam-se ao sul da latitude 30. É onde as videiras, beneficiando-se do clima temperado com estações bem definidas e verões secos, encontram as melhores condições para amadurecer seus cachos e ensejar vinhos de qualidade. No resto do país imperam condições climáticas adversas, como a árida área central ou regiões tropicais semelhantes ao que temos no Brasil.
O estado mais importante é South Australia, responsável por 50% da produção do país e por mais de 70% das exportações. A construção do Nacional Wine Center of Austrália em Adelaide, a capital do estado, é reflexo dessa importância.
Inaugurado em outubro passado, a um custo aproximado de US$ 17 milhões, o complexo é dedicado ao vinho e promove todas as regiões produtoras australianas. Mostra, com recursos sofisticados e riqueza de detalhes, tudo o que diz respeito à bebida, desde as mais diversas uvas, o plantio, o processo de elaboração e as fases que se seguem até o engarrafamento, para em seguida abordar aspectos de serviço e degustação. Oferece cursos permanentes, biblioteca, wine bar e um bom restaurante com 36 mil garrafas estocadas. Dando sentido mais real ao conjunto, foram plantadas, no meio do grande jardim, 500 parreiras com as variedades mais utilizadas na Austrália.
A razão principal da forte presença de South Australia no cenário vinícola do país pode ser creditado à diversidade de suas sub-regiões, com solos e microclimas distintos, de alto potencial. Coonawarra, 400 quilômetros ao sul de Adelaide, é reconhecida por fornecer alguns dos melhores Cabernets Sauvignons australianos. Isso se deve ao clima ameno, com influência marítima, e à "terra rossa", uma camada de terra vermelha assentada sobre calcário poroso endurecido, o "limestone".
Produtores
de outras áreas têm vinhedos ou compram uvas ali, para serem
vinificadas em suas cantinas. Bom exemplo é a Pepper Tree, sediada
no Hunter Valley, a mais de 2.000 quilômetros de distância.
A qualidade não fica comprometida, pelo que mostraram os excelentes Pepper Tree Reserve Coonawarra Cabernet Sauvignon 98 e 2000
que eu degustei. O último, inclusive, acaba de ganhar, entre 800
concorrentes de todas as regiões do país, cobiçado
prêmio Jimmy Watson Trophy, destinado ao melhor tinto com
um ano de idade.
Das várias casas sediadas em Coonawarra, merecem destaque exatamente as que não são representadas no Brasil. E não é só pelos Cabernets Sauvignons, a especialidade local. Toda a linha da Katnook Estate impressiona, começando com o Sauvignon Blanc 2001 de impecável pureza e equilíbrio, passando pelos Shiraz e Cabernet Sauvignon 99, até o Odissey e o Prodigy da safra 98, o que de melhor eles produzem.
| Foto: Jorge
Lucki/Valor |
O mesmo posso dizer da Balnaves, uma "winery" com menor porte e gama limitada, mas ótimos vinhos. O destaque é o The Tally 98, uma seleção das melhores uvas cabernet sauvignon da propriedade, produzido apenas quando a qualidade da safra justifica seu lançamento. As instalações da Balnaves e o cuidado com que trabalham rendem frutos, e sorte: eles administram os vinhedos da Pepper Tree que ganhou o Jimmy Watson Trophy em 2001, e fazem o mesmo, mais a vinificação, do Punters Corner, vencedor no ano anterior.
Majella e Zema, têm a mesma dimensão da Balnaves e filosofia semelhante, produzindo bons vinhos com toque pessoal. É o que diferencia toda essa turma de grandes grupos como Wynns e Lindemans. Os vinhos que degustei, inclusive o conceituado Wynns John Riddoch 98, não resistem à uma comparação com os "pequenos". Até aqui vinga o "small is beautiful".
O alto conceito que os Cabernet Sauvignon de Coonawarra atingiram nesses últimos anos elevaram sobremaneira o preço da terra e das uvas vindas de lá. Não é, portanto, de se estranhar que a delimitação geográfica de Coonawarra tenha gerado tanta polêmica até ser finalmente definida em outubro passado.
Alguns vinhedos acabaram ficando fora dos limites, dando margem ao crescimento de regiões próximas que, embora sem o mesmo potencial e a "terra rossa", tornaram-se conhecidas. No futuro, vale prestar atenção em Wrattonbully e Koppamurra.
Essas áreas ficam no meio do caminho entre Coonawara e Padthaway, outra região vinícola importante, mas com vocação para brancos. Dali saem bons Chardonnays e Rieslings, em sua grande maioria pertencentes aos grupos fortes, como Lindemans, Hardy´s, Seppelt e Orlando.
As outras regiões vinícolas que compõem a força de South Australia estão localizadas próximas a Adelaide. Uma das mais conhecidas, sobretudo pela fama e exuberância de seus vinhos com base na uva shiraz, é Barossa. É a sede da Penfolds e de seu ícone, o Grange, um dos mais celebrados vinhos australianos e que contribuiu para projetar a Austrália internacionalmente.
Com mais de 150 anos de tradição em vitivicultura, Barossa abriga, junto com o vizinho Éden Valley, mais de mil produtores que fornecem uvas para aproximadamente 50 "wineries". Além da Penfolds (que molda seu conhecido Bin 707 com uvas cabernet sauvignon de Barossa e Coonawarra), estão presentes várias grandes como Orlando, Wolf Blass, Yaldara e Yalumba, outras de porte médio como Peter Lehmann, e pequenas com a qualidade de Elderton ou Grant Burge.
O clima quente determina o estilo encorpado dos vinhos e privilegia a shiraz. Ainda que eu tenha provado alguns chardonnays, cabernets e merlots interessantes, a impressão que fica é que nesses casos o mérito é mais do produtor que soube trabalhar sua matéria-prima, do que do lugar.
Em Éden Valley, por outro lado, a maior altitude e a topografia possibilitam maior amplitude térmica, e, por conseqüência, o cultivo de outras variedades com sucesso. O grande nome local é sem dúvida Henschke, produtor do Hill of Grace. Conhecendo os vinhedos, as instalações e, principalmente, Stephen Henschke, o enólogo e proprietário, fica mais claro entender a razão.
A empresa iniciou suas atividade em meados de 1860 e permanece nas mãos da família desde então. Stephen assumiu a casa em 1979 e implantou inovações sem descaracterizar o que vinha sendo perseguido há tempos. Se introduziu com parcimônia os barris novos de carvalho, ele soube também manter as fermentações nos velhos tanques de concreto (que, aliás, o Château Petrus também continua utilizando). Sua mulher, Prue, com especialização em viticultura, recuperou e deu nova força aos antigos vinhedos com um trabalho de precisão cirúrgica.
Além do Hill of Grace, há ainda os reputados Cyril Henschke Cabernet Sauvignon e o Mount Edelstone - um shiraz com parreiras de 80 anos -, e outros vinhos provenientes de vinhedos próprios, cultivados nas proximidades. Desses vale citar o Louis Semillon 2000 e o Julius Riesling 2001, dois brancos de categoria que demonstram a particularidade do clima de Éden Valley.
Stephen Henschke, com sua noção européia de "terroir", deslocou-se da sua sede com a finalidade de obter, em condições geográficas e climáticas diferentes, outros vinhos com personalidades distintas. Desenvolveu então, a partir de 1981, um vinhedo de 16 hectares em Lenswood, região fria e montanhosa, ao sul de Eden Valley. São vinhos finos e que podem perfeitamente ser confundidos com os do velho mundo. As uvas chardonnay, riesling, pinot noir e pinot gris, sentem-se em casa.
Aliás Lenswood, uma das sub-regiões de Adelaide Hills, deveria ser utilizada como exemplo para apagar a imagem de que a Austrália é uma grande planície árida e quente ou terra de surfista. O lugar mais parece Petrópolis, no Rio de Janeiro, Campos do Jordão, em São Paulo, ou Domingos Martins, no Espírito Santo. E este verão está sendo considerado o mais frio dos últimos 25 anos, o que não tem deixado os produtores muito satisfeitos. Mas, na média, o clima fresco tende a estender o período de maturação das uvas, permitindo que atinjam o ponto ideal de seus componentes.
Essas características e a bela paisagem atraíram Tim Knappstein, um produtor bem sucedido de Clare Valley, região mais ao norte de Barossa. Ele vendeu sua propriedade e topou o desafio de produzir vinhos em Lenswood. No meu modo de entender Tim Knappstein ganhou a parada com méritos: seus vinhos são bem definidos, refinados e refletem com esmero o caráter varietal das uvas com que são elaborados. Causaram ótima impressão o Sauvignon Blanc 2001, o Chardonnay 2000 e o Pinot Noir 2000. A habilidade do enólogo fica evidenciada com o "blend" de 66% merlot, 19% malbec, e 15% cabernet sauvignon do Palatine 99, reunindo o melhor destas uvas de clima mais quente.
Partindo de Adelaide Hills em direção ao sul, chega-se à McLaren Vale, famosa pelos seus tintos estruturados calcados em cabernet sauvignon, shiraz, merlot e grenache. Os produtores locais se especializaram e podem mostrar com fidelidade o padrão dos vinhos da região. Alguns dos que provei da Wirra Wirra merecem citação, caso do R.S.W. Shiraz 99. Mais consistente é a gama da d´Aremberg, com vinhos típicos e bem representativos. Eles se permitiram arriscar, desenvolvendo novas uvas com bom resultado. Exemplo da viognier e marsanne, do Rhône, na França.
No meio de tantos vinhos é, no entanto, difícil não se deixar impressionar com Clarendon Hills, uma vinícola boutique, que se especializou em vinhos de alto padrão. Roman Bratasiuk iniciou as atividades em 1990 com as instalações e algumas boas parcelas de vinhas.
Determinado a produzir só o melhor, Bratasiuk estabeleceu contratos de longo prazo com proprietários de alguns dos mais antigos vinhedos das imediações, que lhe fornecem suas uvas para vinhos "single vineyard". Assim, todos os seus vinhos portam o nome do vinhedo que lhe dá origem. Cada um soma, em média, apenas 12 mil garrafas. A série com rótulos por variedade de uva começa com Grenache (a hickinbotham tem mais de 80 anos), seguida de Shiraz, supreendentes Merlots e vários Cabernets Sauvignons. Todos densos, encorpados, que preservam com incrível nitidez a identidade de cada vinhedo. O xodó, endeusado pelo crítico Robert Parker, é o Astralis, um Shiraz exótico e potente, para mexer com a mais impassível criatura.
Deixei intencionalmente a região de Clare Valley por último, dentre as que formam o conjunto rico e diferenciado de South Australia. Se prevalecesse a geografia ela deveria ser citada em seguida a Barossa e Eden Valley. É o roteiro que recomendo seguir para quem sai de Adelaide. A razão para ser citada no final é que Clare Valley reúne aspectos que mostram a diversidade dos vinhos da Austrália, e alguns (aparentes) paradoxos que só enaltecem a bebida.
As grandes diferenças de temperatura entre o dia e a noite permitem que Clare Valley forneça tanto brancos quanto tintos de alta qualidade. Shiraz e riesling, duas variedades que, teoricamente, adaptam-se melhor em climas opostos - a shiraz dá melhores resultados no calor e a riesling, no frio - convivem harmoniosamente e dão alguns dos melhores vinhos australianos do gênero.
Embora eu já tivesse anteriormente provado e gostado, confesso que fiquei agradavelmente surpreso com os brancos que degustei. O que me abriu os olhos foi o Jim Barry Riesling Lodge Hill 86, tirado da adega particular e gentilmente oferecido por Peter Barry, um dos diretores da vinícola. Intenso, complexo e dentro do melhor estilo alsaciano, estava ainda jovem, prometendo longos anos pela frente. O primeiro (grande) a gente nunca esquece. Mas outros se sucederam, como os mais recentes do mesmo produtor e outros da região como Grosset e Leasingham.
Os tintos de Clare Valley também saíram valorizados dessa experiência. Têm personalidade própria, com mais especiarias e menos sensação aberta de fruta dos existentes em Barossa. E ótimo potencial de envelhecimento. Numa série iniciada com os bons vinhos de safras recentes da Pikes, sobressaíram os McRae Wood e The Armagh de Jim Barry. Estes estão disponíveis no Brasil. Quem sabe um dia chega o Riesling. South Australia precisa ser melhor compreendida.
PERTH: Comentei no último artigo sobre a importância do Estado de South Austrália no panorama vinícola australiano, citando inclusive estatísticas que o apontam como responsável pela metade do que é produzido de vinho no país. Em que pese a importância desses números e a fama que muitos rótulos dali justificadamente desfrutam, a região não detém o monopólio dos melhores vinhos da Austrália. Outras áreas contribuem igualmente para garantir a alta reputação que o país alcançou internacionalmente.
| Foto: Jorge
Lucki/Valor |
Bom exemplo é Western Austrália, ou WA, como é conhecida a região no extremo oeste do território australiano, estado com menos de 3% da produção nacional, mas que proporcionalmente tem a maior quantidade de vinhos premium do país. A significativa presença dos vinhos deste canto distante e com pouca história entre os melhores da Austrália tem explicação: além de ter, evidentemente, clima e solo adequados, na região, ao contrário do resto da Austrália, não existem gigantes, apenas casas pequenas e muito bem montadas, que trabalham com mentalidade mais próxima da européia. Não é surpresa que seus vinhos lembrem os congêneres franceses, com chardonnays ao estilo da Borgonha, além de semillons e cabernets com padrão bordalês.
A entrada triunfante de WA no contexto vinícola da Austrália deveu-se aos vinhos procedentes de Margaret River, uma área próxima da costa, distante três horas ao sul de Perth, a capital do estado e cidade mais importante da metade ocidental do país. A colheita mecanizada, bastante utilizada na Austrália, traz particular benefício à Margaret River: além de favorável a vinhos, a região é também paraíso dos surfistas, que, exatamente na mesma época da colheita, quando mais mão de obra seria necessária, preferem aproveitar a melhor estação de ondas.
Os primeiros vinhedos de Margaret River foram plantados por volta de 1970 e alguns dos pioneiros são responsáveis pelos melhores vinhos colocados no mercado atualmente. Dentre os que mais me impressionaram está o Moss Wood Cabernet Sauvignon que, às cegas, passa fácil por um Grand Cru Classe de Bordeaux. Quando o degustei pela primeira vez, recomendado pelo dono do Friends, um restaurante de Perth com carta de vinhos premiada, ele teve sua prova de fogo: estava lado a lado com um Hill of Grace, por quem já expressei minha preferência dentro da Austrália, e de outras três boas garrafas. As longas referências dadas sobre o Moss Wood eram convincentes e aceitei a indicação, embora fossem nitidamente uma tentativa de aproximação para saber quem eram os dois excêntricos que pretendiam engolir, sozinhos, cinco garrafas daquele porte. Sinto que ao dizer, com indisfarçável prazer, que eu estava trabalhando, não contribuí para diminuir a curiosidade do proprietário do Friends.
| A região é também paraíso dos surfistas, que, na mesma época da colheita preferem aproveitar a melhor estação de ondas |
A vinícola Moss Wood é das menores implantadas na área, e nem oferece, a exemplo da maioria das outras, esquema de recepção com degustação, lojinha e atrativos para turistas. A pequena produção está comprometida e não permite a venda de garrafas na propriedade, um hábito saudável e rentável bastante incentivado na Austrália. As chances de se conseguir uma garrafa se restringem a tentar entrar no "mailing list" da casa ou procurar em bons restaurantes e certas casas especializadas, que recebem pequenas cotas por ano.
Outra casa precursora na região que continua pequena mas com vinhos de primeira linha é a Cullen. A filha dos fundadores e enóloga responsável, Vanya Cullen, tem a mão leve e paladar afiado para produzir, entre outros, um dos melhores Chardonnays da Austrália, e um elogiável tinto, corte de cabernet e merlot. Vanya ganhou em 2000 o prestigiado premio de " Winemaker of the Year " concedido anualmente pela linha aérea Qantas em conjunto com a revista australiana Wine Magazine.
Um pouco maiores, mas ainda assim nada perto do padrão australiano, Vasse Felix, Cap Mentelle e Leeuwin são respeitadas por fazerem parte do time que primeiro se instalou em Margaret River e atingirem patamar de qualidade elevado. O primeiro, e maior dos três, tem uma linha extensa com bons vinhos, destacando-se o Semillon 2001, o Cabernet Sauvignon 99, e o Heytesbury tinto 99, um bom cabernet sauvignon composto com partes menores de shiraz, merlot e malbec. Recomendo testar esses vinhos da Vasse Felix no bom restaurante que eles montaram, de preferência numa mesa do terraço que fica em frente ao vinhedo da propriedade. A beleza do lugar, no entanto, não foi suficiente para me convencer da qualidade do Shiraz 2000. Eu estava curioso em prová-lo devido às boas cotações que esse vinho alcança. É dos poucos a se sobressair em Margaret River, onde a uva shiraz não é a grande especialidade. A explicação de que a safra 2000 degustada tenha sido, junto com a 93, a pior da década, foi bem-vinda e permite conceder uma revisão de conceito no futuro.
Não houve surpresa com os vinhos da Cap Mentelle, alguns deles disponíveis no mercado brasileiro. A Veuve Clicquot, representante no Brasil, comprou a vinícola em 1990, mas seu fundador, David Hohnen, continua na direção. O fato de uma empresa francesa da importância da Veuve Clicquot ter apostado na Cap Mentelle, ainda antes da região ter despontado, é sinal de que o potencial é enorme. A continuidade no comando mostra que os critérios de Hohnen estavam corretos. Os vinhos têm caráter e elegância, expressando com fidelidade a essência da casta utilizada. Consegui desta vez experimentar o zinfandel, uma variedade californiana raramente cultivada em outros lugares. O vinho mantém o padrão de qualidade da linha Cap Mentelle e tem características próprias - apresenta mais especiarias e é mais menos exuberante em frutas vermelhas - que refletem as diferenças existentes entre as duas regiões.
Não me comoveram os vinhos da Leeuwin, outro dos pioneiros, nem os da gama superior denominada Art Series, onde os rótulos apresentam um quadro pintado especialmente por um artista local. Chamaram mais atenção a apresentação das garrafas, as instalações e o restaurante, e a idéia de um grande espetáculo anual de música ao ar livre no meio do belíssimo jardim da sede. A série de concertos, que continuaria dois dias depois da minha visita, foi iniciada em 1985 com a London Phillarmonic Orchestra.
Todos os brancos marcam presença, entre eles, um interessante Verdelho. Mas o destaque fica para o Riesling e o Chardonnay |
Renovação bem sucedida fica expressa claramente nos vinhos da Voyager, uma vinícola que se implantou em Margaret River em 1978 e foi comprada por um grande empresário do ramo de mineração há onze anos. Desta vez a beleza do lugar - a entrada, ladeada por vinhedos impecáveis, conduz a um jardim com 1600 roseiras - não ofusca os vinhos. Uma política que denota preciosismo busca produzir somente linhas superiores, fazendo com que apenas as melhores uvas sejam utilizadas. O resto é vendido para terceiros. O estilo dos vinhos é mais do novo mundo, com a evidência de madeira nova, impressionando pela intensidade e equilíbrio.
Há ainda em Margaret River vinhedos importantes pertencentes a empresas sediadas fora dali. É o caso da Sandalford, uma das vinícolas mais antigas de Western Austrália - foi fundada em 1840 - instalada em Swan Valley, a menos de uma hora ao norte de Perth. Em meados da década passada ela passou por uma mudança societária e administrativa que a revigorou. A entrada de um novo enólogo em 2001, o dinâmico e competente Paul Boulden, fecha a série de mudanças que a Sandalford necessitava para se impor no mercado.
Conhecedor da região e objetivo, Boulden logo tomou a iniciativa de priorizar a individualidade das uvas provenientes das quatro zonas vinícolas de WA, onde a Sandalford as colhe e traz para serem vinificadas na central. Cada uma delas tem suas características e especialidades: Swan Valley, mais quente e úmida faz os vinhos correntes, Margaret River beneficia cabernet sauvignon, shardonnay, sauvignon blanc e semillon, enquanto Mount Barker e Frankland River, duas áreas bem mais ao sul, fornecem os melhores shiraz e rieslings do estado.
Fica
mais fácil avaliar o trabalho de Paul Boulden, analisando
os vinhos brancos da safra 2001, que já estão engarrafados.
Com os tintos a degustação foi feita das amostras vindas
do barril; já demonstram enorme potencial e devem continuar seu
bem aventurado processo evolutivo dentro do carvalho por algum tempo.
Todos os brancos marcam presença, entre eles, um interessante Verdelho,
uma uva originária de Portugal bastante difundida na Austrália.
O destaque no entanto fica para o Riesling e o Chardonnay. Eu comentava
com Paul dizendo que são dois vinhos que nasceram premiados. O
primeiro comprovou antes: ele ganhou há 2 semanas atrás
uma das quatro medalhas de ouro no prestigiado National Riesling Challenge
realizado em Camberra. O Chardonnay é só aguardar que virá.
É um belíssimo branco, elaborado com as melhores parreiras
da propriedade de Margaret River, plantadas há 30 anos. Para atingir
a perfeição foram descartados 70% da produção,
resultando em apenas novecentas caixas.
Seguindo as indicações de Paul Boulden fui pesquisar outros vinhos de Frankland River e Mount Barker. O Plantagenet Shiraz 99, no melhor estilo dos vinhos franceses do Rhône, e o Gilberts Riesling 2001, com toques cítricos e florais, são exemplos que permitem apostar no sucesso das duas regiões. Elas estão ganhando prestígio e compõem com a já reconhecida Margaret River, cada uma com sua especialidade, a linha de frente dos melhores vinhos de Western Austrália.
| Foto: Jorge
Lucki/Valor |
SYDNEY: O Hunter Valley, última escala do meu roteiro vinícola de dezessete dias na Austrália, não foi o "gran finale " no que diz respeito deixar para o fim o que de melhor se produz no país, mas foi significativo para que eu pudesse fechar minhas impressões. A constatação, que as evidências expunham e os números comprovavam, é de que a região teve papel importante na história do vinho australiano e perdeu espaço nessa fase próspera e reluzente que eles atingiram recentemente. Outras áreas com condições climáticas mais adequadas e interessantes para a cultura da vinha continuam surgindo, proporcionando vinhos de melhor qualidade. São exatamente esses os responsáveis pela posição de destaque da Austrália. Visitar primeiro as outras zonas de produção me permitiu entender com clareza o passado e o presente.
O Hunter Valley citado é , na verdade, o Lower (Baixo) Hunter Valley, uma região quente e úmida distante duas horas ao norte de Sydney. O clima não é o ideal, mas a oportuna proximidade com a cidade mais populosa e importante da Austrália deu-lhe situação privilegiada em termos de política na área de vinhos, e interesse como centro turístico. A bem montada rede de restaurantes, hotéis, e resorts, é sinal de que o ramo é próspero e as vinícolas aproveitam se preparando para receber grandes grupos, principalmente nos fins de semana.às sextas-feiras agitação é sensível com extensas mesas sendo cuidadosamente preparadas. Os vinhos por outro lado não encantam. Diante dos endiabrados shirazes, cabernets sauvignons, chardonnays e rieslings, do resto da viagem, os do Hunter, com raras exceções e salvo os semillons, saem perdendo.
É uma pena que a semillon, a grande especialidade local não tenha maior apelo comercial e seja sempre ofuscada pela chardonnay. São vinhos diferenciados, com personalidade, que apresentam bom corpo, interessantes aromas minerais, e capacidade para envelhecer por décadas. Não é surpresa também que essa uva, da mesma forma que em Sauternes, na França, colabore para que o Hunter Valley seja conhecido pelos seus vinhos doces. Devido a umidade ela tende a desenvolver a nobre botrytis, causa da excelência dos melhores vinhos doces do planeta.
Deixando
de lado semillons locais, os melhores vinhos que degustei eram de uvas
trazidas por caminhão de outras regiões e ali vinificadas.
A bela linha da Pepper Tree, um bom produtor sediado
no coração do Lower Hunter Valley reforça a tese.
Com a ficha técnica de cada vinho ao meu lado, provei trinta e
umas amostras, a gama completa com as quatro diferentes categorias de
preço que eles propõem. Mesmo sendo uma vinícola
de porte médio/pequeno, a proposta que eles adotam é ir
buscar as uvas onde elas melhor se exprimem e podem contribuir para compor
um bom produto. Chris Cameron, o competente diretor e "chief
winemaker" , sentado à minha frente, tem experiência,
sabe o que tem e o que quer, e é objetivo. Assim, traz por exemplo
shiraz de McLaren Vale, chardonnay de Padthaway, e certamente merlot e
cabernet sauvignon de Coonawarra. É, alias, com esta última,
plantada em ótimos vinhedos próprios, que ele conseguiu
no ano passado o mais disputado prêmio atribuído a vinhos
dentro da Austrália, o Jimmy Watson Trophy. O merlot da
mesma área deixou espantados os participantes internacionais, e
eu também agora, numa degustação com vinte dos melhores
vinhos do mundo elaborados com esta casta, ao deixar para trás
rótulos renomados.
A única vinícola do Lower Hunter Valley que me impressionou foi a Brokenwood, com vinhos de alta categoria, desde o esperado semillon, até chardonnays e, finalmente, um shiraz capaz de recuperar o prestígio dessa uva na região. A curiosidade é que após eu provar e elogiar o Graveyard Vineyard Chardonnay, me ofereceram, sem alarde, um outro branco pedindo que eu identificasse. Não foi difícil distinguir a uva, o carvalho francês e o estilo elegante, mas não cheguei a reconhecer o Montrachet Marquis de Laguiche 97, uma referência mundial em chardonnay. Guardadas as diferenças de estilo - e é preciso dizer que o Graveyard não tem aquele padrão explícito do novo mundo - não há hoje grandes diferenças do ponto de vista qualitativo e de prazer. O tempo deverá, talvez, distanciá-los.
A uma hora mais ao norte, fica o Upper (alto) Hunter, com clima menos úmido, que vem crescendo em área plantada e qualidade. É de lá que saem alguns dos melhores chardonnays da zona, como demonstra a Rosemount ali instalada e seu Roxburgh.
O estado de New South Wales, onde o Hunter se situa, sustenta a segunda posição em volume produzido dentro mapa vinícola australiano. Mantém o prestígio devido à importância histórica do Hunter, e principalmente pela qualidade de outras sub-regiões que já se faziam presentes com vinhos de renome ou que vêm despontando com força crescente. No primeiro caso está Riverina, no centro do estado, onde a De Bortoli produz o Noble One Botrytis Semillon, a maior referência em vinhos doces australianos. Entre as áreas que merecem cada vez mais citações estão Mudgee e Camberra District. É nessa última que a Clonakilla, uma pequena casa fundada há 30 anos e uma das preferidas da autora inglesa Jancis Robinson, produz preciosidades pouco comuns fora do Rhône na França. Uma amostra é o ótimo Shiraz Viognier, combinação inusitada das duas variedades, uma tinta e outra branca, responsáveis pelo charme dos Côte Roties.
Seguindo de perto New South Wales, vem o estado de Victoria, o terceiro na hierarquia australiana, mas com dimensões territoriais bem menores. A região ressurgiu nos últimos trinta anos, depois de ter boa parte terrivelmente atingida pela praga "phylloxera". Ainda hoje existem focos no estado fazendo com que nesses lugares as videiras sejam enxertadas, única forma de conviver com a praga. É o que acontece em áreas ao sul de Melbourne, a capital de Victoria, como Geelong e a Península de Mornington, e a parte leste do estado.
A diversidade de micro-climas, com tendência mais fria, faz com o leque de uvas seja bastante variado com estilo próprio e diferenciado. A produção fragmentada, com domínio de pequenos produtores enfatiza este perfil e garante qualidade adicional. Os shirazes da Mount Langi Ghiran, em Grampians mais a oeste, e da Craiglee, em Subury, mais próximo de Melbourne, foram exemplares excepcionais, mostrando o que essa casta pode apresentar em clima fresco se bem trabalhada. Merece particular realce também vários rieslings, aqui representados pelo Crawford River, em Sunbury, no extremo oeste.
A sub-região mais conhecida de Victoria é Yarra Valley, a uma hora de Melbourne, de onde partem, junto com os da ilha da Tasmânia, os melhores pinots noirs e espumantes da Austrália. Não é por acaso que a Chandon tenha escolhido o lugar para implantar seus vinhedos e construir suas chiquérrimas instalações. Sobressaem os espumantes e o restaurante com uma enorme área envidraçada dando para o vinhedo tratado como um jardim. O local foi frequentado por mais de 100 mil pessoas no ano passado.
O mesmo conceito foi utilizado pela Yering Station, parceria entre um grupo australiano e a casa de champagnes francesa Devaux. A construção recente tem arquitetura de bom gosto, moderna e funcional e vinhos de nível superior. A linha inteira, mostrada pelo hábil Tom Carson, enólogo responsável, me cativou, em particular o Pinot Noir Reserve 2000, que será lançado no mercado apenas em maio próximo.
Por mais que eu acompanhasse, ou tentasse acompanhar, o que se passa com os vinhos australianos, o que encontrei neste roteiro superou minhas melhores expectativas. Tanto nos vinhos, cuja diversidade e riqueza são pouco conhecidas fora, quanto pela civilidade e simpatia do seu povo. São bons profissionais e não são chatos. Eles são responsáveis pela ótima qualidade de vida que desfrutam, e a merecem. Valeu, entre outros, a precisão das informações e a interferência para conseguir uma mesa no Banc, em Sydney, o melhor restaurante da viagem. Foi aliás o único lugar onde os vinhos vieram na temperatura correta, uma falha constante e até certo ponto incompreensível num país com cultura na área. Quem for vale ficar atento.Diante de tantos acertos, esta " falha " australiana é absolutamente irrelevante.
Fonte:
- Lucki, Jorge. Os Segredos de uma Campeã de Audiência,
Valor Econômico, 21/02/02
- Lucki, Jorge. Guia Comentado de Roteiro em Fermentação,
Valor Econômico, 28/02/02
- Lucki, Jorge. Invasão de Ondas Etílicas na Terra
do Surf, Valor Econômico, 14/03/02
- Lucki, Jorge. Doce Degustação numa Terra que Constrói
Tradição, Valor Econômico, 21/03/02